A degradação ambiental, a perda da biodiversidade e as pandemias

Artigo gentilmente cedido pela autora

O mais recente relatório do IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas), documento tornado público em 29 de Outubro de 2020, aponta para a imperiosa necessidade de redução da degradação ambiental como única forma de prevenir futuras pandemias. Segundo os cientistas e autores do relatório, a implementação de medidas para evitar a perda de biodiversidade, e por essa via evitar a ocorrência de pandemias, é cerca de 100 vezes menos dispendiosa do que atacar os seus efeitos uma vez instalada a pandemia. Na verdade, temos optado por detetar a doença de forma precoce, procurando depois o seu controlo através do desenvolvimento de vacinas e terapias eficazes. É evidente que perante a Covid-19, com mais de um milhão de mortes e um impacto económico brutal, esta resposta reativa revelou-se inadequada.

De acordo com este mesmo estudo, existirão cerca de 1.7 milhões de vírus – atualmente “ainda desconhecidos” – em mamíferos e aves, e destes, cerca de 850 000 poderão ter capacidade para infetar seres humanos. A abordagem mais eficaz ao problema passa por uma mudança estrutural com vista a conter a degradação dos ecossistemas e do ambiente em geral, através do aumento das áreas protegidas e da redução da exploração das regiões com maior biodiversidade, em particular as florestas tropicais, diminuindo o contacto entre a vida selvagem e as comunidades humanas.

O mesmo relatório afirma ainda que as pandemias são cada vez mais frequentes e que surgem pelas mesmas transformações ambientais globais que conduzem à perda de biodiversidade ou às alterações climáticas – como a desflorestação, a expansão e intensificação de uso agrícola e o comércio e consumo de vida selvagem. A tudo isto terá que se acrescentar os padrões de consumo da sociedade.

As alterações de uso do solo são o fator determinante na pandemia e na origem da emergência de mais de 30% das novas doenças notificadas desde 1960. Os autores do estudo do IPBES propõem, entre outras recomendações, a opção por impostos sobre o consumo de carne, produção agropecuária, e outras atividades consideradas de alto risco pandémico. Para além disso, também advertem para o risco associado à agricultura, comércio e consumo de vida selvagem, na base da perda da biodiversidade e de doenças emergentes como a SARS e a Covid-19.

É possível superar esta era de pandemias – a atual será a sexta desde 1918 – mas sem estratégias preventivas, tenderão a surgir com mais frequência, a propagar-se mais rapidamente e a matar mais pessoas, afetando a economia e a estabilidade global.

As alterações climáticas representam um fator de pressão global adicional, aumentando os riscos sobre os meios de subsistência, a biodiversidade, a saúde humana e dos ecossistemas, e sobre todo o sistema alimentar.

Num tempo crítico, em que a pandemia reforça o quadro de incerteza e insegurança em que vivemos, confrontando-nos perante a nossa própria vulnerabilidade e a fragilidade das nossas organizações, é imperativa uma nova cultura de partilha, de colaboração, de compromisso, numa agenda inspirada pelo bem comum. A transição ecológica é imperativa, mas não se fará sem um novo pensamento económico, afastando a economia de um passado desligado da natureza e do reconhecimento dos seus limites, e marcado pela insensata perseguição de um crescimento ilimitado. A economia tem agora que se ajustar à biosfera, pensando dentro dos limites planetários e procurando, de forma mais inteligente, dar resposta às necessidades das sociedades. A conversão ecológica exigirá investimento público, práticas de sobriedade, inteligência coletiva, cooperação e discernimento para escolhermos as melhores soluções.

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