Os taninos e as cores de outono

Quem pensar que a natureza criou as cores de outono, com que embeleza as florestas de folha caduca, para deleite do Homo sapiens e inspiração dos poetas… Está redondamente enganado!

A diminuição da duração dos dias informa as árvores de que o inverno se aproxima e que têm de tomar providências, nomeadamente recuperar o que estiver nas folhas, que seja útil, antes que elas caiam; obviamente também, interromper a produção de clorofila. Desta feita, o azoto e os fosfatos são encaminhados para o tronco e raízes, e as moléculas de clorofila e os cloroplastos são desmontados. Com o desaparecimento da omnipresente clorofila, a cor verde esvai-se progressivamente, deixando surgir a verdade que estava encoberta: a clorofila não era o único pigmento presente nas folhas; outros pigmentos, com várias gamas de amarelo, coadjuvavam a clorofila na captação de fotões, em outros setores do espectro solar: a família dos carotenos. Com a saída de cena da clorofila, os carotenos têm o seu momento de glória, aparecem com todo os seus amarelos esplendorosos; infelizmente para eles, será uma glória efémera.

Mas quando tudo parecia ser “fim de festa”, nas folhas, eis que estas empreendem uma operação de reforço do seu teor em taninos, com antocianinas vermelhas (ou azuis, consoante a acidez).

Importa dizer que os taninos são polifenois que exibem propriedades diversas: para além de muitos deles serem coloridos, são também adstringentes, isto é, ligam-se às proteínas, quer estruturais quer enzimáticas, anulando a sua funcionalidade e tornando-as insolúveis. Associamos a adstringência a uma sensação rugosa na boca quando comemos determinados vegetais… A pele das uvas, por exemplo. O que se passa é que os taninos precipitam as proteínas salivares que recobrem o palato, expondo aos sensores da língua, a rugosidade própria dos nossos epitélios.

Para que é que as plantas precisam dos taninos?

Parafraseando Marc-André Selosse, os taninos são o “canivete-suíço” das plantas. Servem muitíssimos fins: são eles que, em geral, dão cor às pétalas, cheiro as plantas e sabor aos frutos; são também antioxidantes; formam o esqueleto das plantas (lenhina, suberina); mas, sobretudo, eles constituem o arsenal químico de combate aos animais herbívoros. Com efeito, os taninos tendem a desencorajar a herbivoria, quer pelo amargor, quer porque inativam os enzimas digestivos que os herbívoros dispõem para digerir os vegetais.

Claro está que os animais também desenvolveram as suas estratégias para fazer frente aos taninos das plantas; senão, os porcos não comeriam bolota, nem as cabras, a carqueja. Nas cadeias tróficas, os sistemas defensivos “inventados” por uns, destinam-se somente a moderar a voracidade de outros. Nós próprios desenvolvemos estratégias para os inativar, e apressamo-nos, depois, a eliminá-los pela urina. É por isso que algumas plantas são classificadas como diuréticas.

As plantas também têm de se defender dos seus próprios taninos. Não podendo permitir que tais substâncias circulem pela célula “à vontadinha” com prejuízo para as suas próprias proteínas, transfere-as para o vacúolo central, que é como quem diz, para o “vaso sanitário”. Na verdade, as células vegetais, na impossibilidade de saírem de onde estão para irem ali ao lado, ao “petit coin” (como diria Madame Récamier), trazem consigo o seu próprio… “Penico”, para a qual despejam os dejetos; mas não só, também outras substâncias indesejáveis ao metabolismo, entre as quais, as que compõem o seu arsenal químico defensivo.

As árvores próprias do norte (as do sul não perdem a folha em vésperas do inverno), chegando ao outono, compõem quadros da maior beleza em que os matizes de verde e castanho se misturam com o amarelo, o laranja e o vermelho. Já vimos que o desaparecimento da clorofila dá azo a que os carotenos (amarelos) se exponham e nos encantem a vista. Mas a seguir, a folhas tornam-se, progressivamente, avermelhadas, por vezes azuladas… Antes de virarem castanhas e irem repousar na manta-morta. O que se passa é que, quando o amarelo se tinha, finalmente exposto ao mundo, surgem os taninos vermelhos, as antocianinas, que o mascaram de novo, originando os tons laranja, vermelho, por vezes, azul.

Cores de Outono (fotografia: © Vítor Estrela Santos).

Pouco depois, a manta-morta das florestas decíduas cobre-se de folhas e, para quem viveu nessas latitudes, é com nostalgia que as recorda.

Cores de Outono (fotografia: © Clarinda Nunes).

Mas então, com que finalidade as árvores promovem a síntese de taninos nas folhas senescentes, que vão cair pouco tempo depois? Sendo certo que se trata de uma operação energeticamente dispendiosa (fabricar moléculas tão complexas!), a que se deve esse aparente esbanjamento de recursos por parte das plantas?

Levantemos um pouco o véu: nem todo o azoto e o fosfato zarpou das folhas, quando do alerta provocado pelos dias curtos. Uma parte desses preciosos nutrientes, ficou nas células. Com que finalidade? Vejamos…

Quando da morte das folhas, as células entram em falência, as membranas celulares desagregam-se e os taninos, agora à solta, fixam-se às proteínas celulares e formam aglomerados insolúveis que agregam outras moléculas. Neste passo, os taninos perdem as suas cores, tornam-se castanhos. O conjunto dos taninos, proteínas e o mais que for, aglomera-se no interior do esqueleto celulósico da célula. O azoto e os fosfatos remanescentes ficam assim retidos. É essa a razão da cor castanha das folhas mortas.

E vem o inverno e com ele o frio que paralisa os fungos do solo, e as chuvas que tudo tendem a levar. Os “pigmentos” castanhos, porém, para além de serem insolúveis, estão retidos dentro das caixinhas formadas pelos esqueletos celulares.

Quando a primavera regressa e a vida no solo se ativa, os fungos e as minhocas iniciam de imediato a desmontagem quer das estruturas celulósicas, quer dos pigmentos castanhos. As moléculas fenólicas de difícil digestão, encaminham-se para a formação do húmus; o azoto e os fosfatos são recuperados pelas raízes, paulatinamente, com a cumplicidade das micorrizas. Havia, portanto, uma razão para as plantas gastarem energia a sintetizarem mais taninos, na hora da senescência: a autofertilização programada.

Como diria o saudoso Fernando Pessa: E esta hein?!

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