Serra do Açor: tempo e natureza

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“Pensar o passado, para compreender o presente e idealizar o futuro”

Heródoto
No coração de Portugal, ergue-se, entre a Lousã e a Estrela, a Serra do Açor. A “Serra Parda” nas palavras de F. Almeida (1992)[1], uma de várias descrições contemporâneas que nos chegam: “Xistosa e rude, esquálida até, seca, de lombas arredondadas mas de ravinas profundas, esta Serra do Açor”.

Esta, tem sido assumida como uma paisagem degradada por intervenção humana recente (S. Daveau [2], avançou esta possibilidade na sequência dos primeiros estudos na Serra da Estrela, que ainda não adivinhavam a ancestral ação antrópica. A ideia ficou!), da qual restava uma relíquia, a Margaraça, do coberto “artificialmente substituído pela recente introdução do pinheiro (Pinus pinaster) à mão dos Serviços Florestais, ou do que dele resta por acção dos recentes incêndios” [3] [4] [5] [6]. Todavia, esta é a imagem que repetidamente nos chega das antigas descrições: Em 1881, Rivoli e Barros Gomes [7] falavam de “superfícies escalvadas, ou cobertas de espécies de urze e giesta (Erica sps. e Cytisus sps.) mas também, “aqui e além, pequenos grupos de pinheiros bravos; De 1853, A. Secco [8] conta-nos sobre “a solidão do deserto (…) montanhas escalvadas, condenadas a uma esterilidade perpétua” mas refere, não obstante, igualmente os carvalhos (Quercus sps.) da Margaraça, assim como matas particulares de pinheiros, carvalhos, castanheiros (Castanea sativa) e sobreiros (Quercus suber), no concelho de Góis; Link (1805) [9], descreve uma “cadeia de montanhas bastante altas, mas áridas e desagradáveis”, referindo também “a bela e fértil planície de Arganil, repleta de florestas de pinheiro e castanheiro”; Tal como em 1751, o Padre Luiz Cardoso [10]: “He o cume desta serra cuberta de mato miúdo, e maninho, mas pelas abas produz alguns castanheiros”.

Emergem, assim, dois grandes traços: cumes desnudados e vales verdejantes. Traços esses, cuja origem se perde na bruma dos tempos e que são sugeridos pela própria ecologia serrana: do conjunto de espécies das cumeadas, com centro genético nas montanhas do NW ibérico, rico em endemismos e raridades (Arabis beirana, Festuca summilusitana, Jurinea humilis, Narcissus asturiensis, etc.) às formações de azereiros (Prunus lusitanica), relíquia da era Terciária que sobreviveu às glaciações da nossa era refugiada em vales encaixados de umas poucas serranias W-mediterrânicas, tendo aqui, no Açor o seu maior contingente global [11].

Serra do Açor (fotografia: Município de Arganil).

Noutros tempos

A serra está semeada de pequenas povoações, (que) não parecem ter história que alguém se tenha dignado registar (…) Mas que vieram fazer, a estes montes de secura e aridez, estas gentes serranas?” [1]

Nas lendas serranas, o tempo histórico começa com o “Tempo do Mourisco”, um ano zero simbólico, anterior à ordem Cristã. Tudo o que era antigo, de gravuras rupestres a antigos povoados, passando por calçadas, mamoas, minas e tesouros, era atribuído aos Mouros. Na verdade, são vestígios que ajudam a contar uma história com pelo menos sete milénios [12]. História em que encontramos cervídeos, ursos (Ursus arctos) e lobos (Canis lupus), desenhados ao longo das vias ancestrais pelos cumes serranos (assim como serpentes, aves ou aracnídeos, típicos dos topos), mas também equídeos, bovídeos e caprídeos – na vizinha Serra da Estrela, há indícios de transumância há mais de seis mil anos [13] [14]. E em que encontramos povoados pré-romanos em plena montanha. Importante razão seriam os metais. Esta área foi mesmo uma das principais fontes de ouro da Hispânia romana e, até agora, a maior identificada em Portugal e na antiga Lusitânia [15]. Dessa altura, chegam-nos já alguns escritos. Plínio [16] relata-nos isso mesmo: “As Montanhas da Hispania, em tudo o resto áridas e estéreis e nas quais nada cresce, são obrigadas a serem férteis pelo Homem ao proporcionarem este precioso bem (Ouro)”. Já Estrabão [17] tentava explicar essa esterilidade: “sobreveio que o território, descuidado, como estava estéril dos seus recursos naturais, era habitado por bandidos”, o que deve ser interpretado à luz de uma narrativa civilizadora. Foi César, que na pacificação pela força, convenceu os serranos a descer a serra. Surgem então inúmeras Villas no sopé norte (ameno e húmido, baixo e arenítico) abraçando a tríade romana – trigo, azeite e vinho (Triticum sps., Olea europaea, Vitis vinifera) (a que Estrabão contrapunha o pão de bolota, a manteiga e a cerveja). É também por esta altura que, na Estrela, ganha destaque o castanheiro [18]. Os lugares, as rotas, os cultos, etc., resistiram a séculos de guerras, quando desta serra se fez fronteira.

É assim que, dos tempos do Condado Conimbricense, nos chega a linha de castelos ao longo de toda a vertente norte da cordilheira central (incluindo Góis, Bordeiro, Arganil, Côja, Avô) que, ainda antes da nacionalidade, são doados à Igreja, entidade que (sobretudo através do Mosteiro de Folques) repovoou ativamente esta região. Dos forais medievos, sobressai o cultivo de trigo, centeio (Secale cereale), vinho, linho (Linum usitatissimum), frutas e hortícolas. Entre os animais, bois (Bos taurus), cavalos (Equus caballus), burros (Equus asinus), ovelhas (Ovis aries), cabras (Capra hircus), porcos (Sus domesticus) e galinhas (Gallus gallus). Nos montes, além do mel (abelha, Apis mellifera), coelhos (Oryctolagus cuniculus) e perdizes (Alectoris rufa), viviam cervídeos, javalis (Sus scrofa) e ursos (foral de Côja), por entre carvalhos, castanheiros, pinheiros (foral de Arganil) e matos.

Não obstante, aquando do Numerando Joanino de 1527 [19], largas porções das zonas central e sul da serra estarem ainda despovoadas, os forais manuelinos de Arganil, Côja, Pombeiro, Sanguinheda, etc., da segunda década do século XVI, já referiam uma nova planta, cuja expansão ficou conhecida por revolução: o milho (Zea mays) (melhor, as “três irmãs”: milho, feijão, Phaseolus vulgaris, e abóbora, Cucurbita pepo). É então que o homem se estende até aos limites do possível, multiplicando aldeias e lugares, quintas e casais, por todos os recantos serranos. Na falta de grandes espaços bravios, do urso, ficou a toponímia, as lendas e as silhas (no século XVIII, ainda encontramos referência à espécie na vizinha Serra da Guardunha [10]).

Era este o verde dos vales (o saudoso “no meu tempo era tudo verde”), com centeio, trigo, vinha, olival e frutícolas (vários topónimos: Pereiro, Maceira, Pessegueiro, Nogueira, etc.) a complementar os principais produtos: castanha e milho. Junta-se a batata (Solanum tuberosum – que em 1758 já aparecia na Teixeira). Explica-nos Estrabook [20], num estudo em Praçais, que este verde era mantido à custa dos nutrientes da envolvente, por via dos rebanhos, numa proporção de 1 para 6-8. Com efeito, os montes acolhiam cabras e ovelhas, mel e bicharada – coelhos, perdizes, javalis, lobos e raposas (Vulpes vulpes), contam-nos as Memórias Paroquiais [21], tal como cervídeos ou rapinas (Açor, Gavião, Águia, Abutre), pela toponímia. Esta última, dá-nos ainda pistas sobre a presença de carvalhos, castanheiros, sobreiros e pinheiros, mas igualmente de matos e atividades tradicionais (Silva, Tojo, Torga, Carquejeira, Malhada, Carvoeiro, Cabeço da Chama, etc.). Relembro: foi sempre uma marca paisagística este contraste entre vales verdejantes e ásperos cumes, à imagem do que seriam as restantes serranias do país.

Embora o país estivesse despido de arvoredo [22] [23] [24], aqui, tanto à mão da Igreja (Margaraça, Mata do Convento de Vila Cova, Mata de Fajão, Matas dos Santuários do Montalto e da N. Srª. Preces, etc.), como do Estado (que ao longo do século XX florestou os baldios serranos, somando-lhes coníferas exóticas, vidoeiros, Betula sp., etc.), como até de plantações particulares, a floresta persistiu e até prosperou não há muito tempo, quando constituía o mítico “maior pinhal da europa”.

O nosso tempo

De barragens a estradas, das Minas da Panasqueira ao falado comboio para Arganil, sonhos houve de progresso. Mas na serra, como nos conta Aquilino Ribeiro [25], “cada palmo de terra era um dia de miséria, assistência inexistente, salários baixos, alojamento do pior”. E, num estalar de dedos, todo este mundo desabou. As aldeias perderam as suas gentes, as serras os seus rebanhos, até os grandes inimigos do serrano – lobos e coelhos – rarearam. Hoje, escolas, casas de guarda, palheiros, currais, moinhos, socalcos, etc., são ruínas entregues a silvas (Rubus sp.), urzes e giestas. Sem agricultores, pastores, carvoeiros, resineiros, etc., o fogo, que sempre fez parte da história destas serras e destas gentes (Connor et al., 2012 [26], demonstraram a ocorrência constante de fogo nos últimos 14.000 anos da vizinha Serra da Estrela), tornou-se devastador – desde os anos 60 [27], manifesta-se por grandes incêndios que lavram dias e dias, às vezes até chover, com mortes, feridos, desalojados, animais domésticos e selvagens vitimados, infraestruturas destruídas, kms e kms pintados de negro.

Como já nos dizia, em 1969, Oliveira e Costa na Comarca de Arganil [28], “é terra perdida, sem valor, a aguardar o fogo que virá um dia”. Nestas terras sem destino, eucaliptos (Eucalyptus globulus) e mimosas (Acacia dealbata) – duas espécies australianas, chegadas à Europa no séc. XIX, que, recebidas como “o baptismo milagroso pelo qual a esterilidade se converte à cultura” [29], muito se ofereceram, plantaram, fomentaram… – ameaçam tomar conta da paisagem.

Numa história rica em surpresas, fértil em sobressaltos (mesmo evitando especular sobre a relação de teixo, Taxus baccata, ou vidoeiro com a toponímia, sobre o significado do topónimo camelo, Camelus dromedarius, numa região que por tantos séculos teve mouros e moçárabes, ou sobre a proveniência dos mirtilos, Vaccinium myrtillus, da Quinta da Torrinha – Góis, século X [30] – ou das Martas, Martes sp., e Gamos, Cervus dama, do foral da Covilhã, ou ainda sobre quem era essa criatura do foral covilhanense e da toponímia arganilense, o zebro…), vivemos hoje um novo e difícil capítulo.

Contudo, onde há dificuldades, também há oportunidades. O valor natural pode ser uma delas.

Que novos tempos?

Os meios ribeirinhos, que por falta de linhas só aqui aparecem, espelham o que foi esta história conturbada: açudes, barragens, praias, exóticas, cortes, pesca, etc. e apesar de tudo isto, conservam os amieiros (Alnus glutinosa) e salgueiros (Salix sps.), as trutas (Salmo trutta) e as bogas (Chondrostoma polylepis), referidos ao longo dos tempos, e “joias” como a salamandra lusitânica (Chioglossa lusitanica), o lagarto d’água (Lacerta schreiberi) ou a lontra (Lutra lutra). Com as passagens de peixes, a lampreia (Petromyzon marinus) voltou a subir o Mondego.

Pelas serranias, onde se continuam a descobrir novidades, voltaram também nos últimos anos, os javalis e os cervídeos, o esquilo (Sciurus vulgaris) ou o sacarrabos (Herpestes ichneumon).

Hoje, temos matas protegidas (Margaraça, Fajão), projetos de gestão autárquica (Cepos, Santa Luzia), projetos piloto (pagamento de serviços de ecossistema na área protegida, floresta mais resiliente em Alvares, a empresa pública Florestgal a assumir baldios), ZIFs constituídas, temos também novos rebanhos (Rabadão, Moradias), ou a associação de conservação da natureza MONTIS, a gerir terrenos… Temos quem tenha vontade de perseguir as tais oportunidades, sabendo que se o homem destrói, também sabe, pode e deve construir. Afinal, parafraseando Paracelso, “a diferença entre veneno e remédio, está na dose”.

Mata da Margaraça (fotografia: Município de Arganil).

Referências bibliográficas

[1] F. ALMEIDA (1992). Percursos de Fim-de-Semana.

[2] S. DAVEAU (1986). Les bassins de Lousã et d’Arganil.

[3] J. PAIVA (1990). A Floresta Natural.

[4] ICN (1994). Paisagem Protegida da Serra do Açor.

[5] PENA & CABRAL (1996). Roteiros da Natureza.

[6] PEDROSA (2000). Carta de lazer das Aldeias Históricas.

[7] RIVOLI (1881). Relat. da Adm. Geral das Matas.

[8] A. SECCO (1853). Memoria histórico-corográfica (…) Coimbra.

[9] LINK (1805). Voyage en Portugal.

[10] CARDOSO (1751). Dicionário Geográfico, tomo II.

[11] P. SILVEIRA (2007). A flora da Serra do Açor.

[12] N. RIBEIRO (2014). Manifestações de arte rupestre nas BH dos rios Ceira, Alva (…) Zêzere e Unhais.

[13] F. SILVA (2013). Aldebaran: a estrela que deu nome à serra.

[14] CARVALHO et al. (2017). Neolithic archeology at the Penedo dos Mouros (Gouveia, Portugal).

[15] 2016, CM ARGANIL.

[16] PLÍNIO-O-VELHO. Naturalis historia XXXIII, 21.

[17] ESTRABÃO. Geografia, livro III.

[18] VAN DEN BRINK & JANSSEN (1985). The effect of human activities (…) in the Serra da Estrela.

[19] 1527, Cadastro da População do Reino.

[20] ESTRABOOK (1998). Maintenance of fertility (…) in central interior Portugal.

[21] 1758, Memórias Paroquiais.

[22] ANDRADA E SILVA (1815). Sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal.

[23] VARNHAGEN (1836). Manual de instrução prática sobre sementeira, cultura e corte de pinheiros.

[24] G. PERY (1875). Geografia e estatistica geral de Portugal e Colónias.

[25] A. RIBEIRO (1958). Quando os lobos uivam.

[26] CONNOR et al. (2012). A long-term perspective on biomass burning in the Serra da Estrela.

[27] ADRIÃO & GUIOMAR (2018). ResearchGate Project: Contribuição para a história do fogo no Centro de Portugal.

[28] J. OLIVEIRA E COSTA (1969). O mato, uma calamidade do nosso tempo.

[29] JAIME LIMA (1920). Eucalyptos e Acácias.

[30] NEVES et al. (2015). Archaeological monitoring and report: Quinta da Torrinha (Góis).

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