Bons acordos fazem bons amigos

Crescem sobre a casca das árvores, na superfície das pedras, nos telhados, sempre em locais insuspeitos de riquezas escondidas. Uns são pretos, outros amarelos, outros cinzentos-esverdeados; também os há vermelhos, laranja, azuis ou violeta.

Chamam-se líquenes (Fig. 1) e são conhecidos pelo menos desde a civilização mesopotâmica, pois alguns deles eram usados em tinturaria. Entre nós, conhece-se o urzela (Roccella tinctoria) que apesar de ser verde-acinzentado, com ele se prepara uma tintura vermelha-violácea. A exploração económica deste líquen foi uma importante fonte de rendimento para os Açores até ao séc. XVI.

Fig. 1 – Líquen-dos-telhados, Xanthoria parietina (L.) Th. Fr. (fotografia: © Jorge Araújo).

Sobre os líquenes recaiu um mistério desde a antiguidade até meados do séc. XIX, pois não se conseguia classificá-los em virtude de exibirem caracteres antagónicos: por um lado, tinham uma estrutura filamentosa e emitiam esporos como fungos (que não fazem fotossíntese); por outro, encerravam estruturas verdes que denunciavam inequivocamente a capacidade para exercerem a função fotossintética (Fig. 2 e 3).

Fig. 3 – Pseudevernia furfuracea (L.) Zopf (fotografia: © Jorge Araújo).

Quando em 1867, o botânico suíço Simon Schwendener declarou que se tratava de uma associação entre um fungo e uma alga, logo surgiram uns quantos, encabeçados pelo grande especialista em líquenes, o finlandês William Nylander, a tentar desacreditá-lo.

Mas a caravana continuou, como diz o ditado, a passar apesar da controvérsia e dez anos depois, o biólogo alemão Albert Frank propôs o termo “symbiotismus” para designar a associação da alga e do fungo, no líquen. O termo não pegou exatamente como proposto, mas no ano seguinte, resvalou para “symbiose”, onde se mantém até hoje para designar o conceito de associação entre dois organismos, com benefício para ambos. Depois tudo se esclareceu, foi possível separar o fungo da alga e cultivá-los separadamente, em laboratório; e a seguir, foi possível reconstituir o líquen juntando o fungo com a alga.

Depois… como nada é simples, descobriu-se que não só algumas algas verdes unicelulares (Chlorophyta) (Fig. 4) são susceptíveis de se consorciar com fungos (Ascomicetos, mas não só) mas também algumas bactérias fotossintetizantes (Cyanophyta), as conhecidas “algas azuis”, o podem fazer. O negócio é simples: dispõem-se “grosso modo” em sandwich “fungo-alga-fungo” (Fig. 5 e 6); o fungo providencia proteção, humidade e alguns nutrientes que ele facilmente vai buscar aos substratos; a alga, acarinhada no ambiente húmido que a sua origem aquática não permite dispensar, faz o que lhe compete, a fotossíntese, fornecendo ao fungo a glucose de que este necessita “como pão para a boca”.

Fig. 4 – Alga microscópica presente na estrutura de um líquen, observada através de lupa eletrónica (fotografia: © Museu Virtual da Biodiversidade).
Fig. 5 – Esquema genérico da estrutura de um líquen, em corte transversal (esquema ilustrado: © Jorge Araújo).

As imagens abaixo correspondem a cortes transversais feitos em três líquenes diferentes, observados com o auxílio de uma lupa eletrónica. Nelas se pode observar a associação simbiótica entre o fungo e a alga, em que inúmeros filamentos translúcidos esbranquiçados – hifas do fungo – envolvem um aglomerado de minúsculas estruturas de cor verde – as algas.

Este sistema é muito resiliente às flutuações dos parâmetros ambientais, mas, ao invés, é muito sensível aos poluentes. Por isso, os líquenes são bons bioindicadores da poluição.

Quando eu “andei à escola”, a simbiose protagonizada pelos líquenes era ensinada como uma curiosidade, algo de particular. Mas será mesmo assim? Será que à semelhança dos líquenes, outros não terão também assinado bons acordos?

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